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Então o que é o Reconstrucionismo Celta (RC)?


O que é o Reconstrucionismo Celta (RC)?

O Paganismo Reconstrucionista Celta é um movimento politeísta, animista, religioso e cultural. É um esforço de reconstituir, em um contexto cultural Céltico moderno, os aspectos das antigas religiões Celtas que se perderam ou foram suprimidos pelo Cristianismo.

Há elementos sobreviventes das tradições Celtas pré-cristãs nos costumes e práticas folclóricas dos países Celtas e da diáspora Celta, mas após séculos de Cristianismo sobreposto a elas, a maioria das pessoas não considera estas tradições populares como sendo, em si mesmas, um caminho espiritual completo ou viável. Estudando os antigos manuscritos e o folclore regional, combinando esta informação com práticas místicas e extáticas, e trabalhando juntos para extirpar os elementos não-Célticos entremeados, tentamos nutrir o que ainda sobrevive e ajudar as tradições politeístas Celtas a crescerem fortes e completas novamente. Buscamos isso, em parte, ao tentar imaginar como os diferentes paganismos Celtas pareceriam, nos dias de hoje, se não tivessem sido interrompidos em sua evolução pelo Cristianismo, do mesmo modo que o Hinduísmo mudou ao longo dos séculos, permanecendo o mesmo mas modificando-se com os tempos.


O que vocês querem dizer por “Celta”?

“Celta” define um grupo de línguas relacionadas entre si no grupo das línguas Indo-Européias e as culturas que se desenvolveram nas comunidades que falam estas línguas. A identidade Celta não é baseada em genética ou “sangue”, mas em pertencer a este grupo cultural e lingüístico. Em Inglês, “Celtic” se pronuncia “Keltik”, em Francês “Seltic”. Não perguntem sobre aquele time de basquete de Boston ou o time de futebol de Glasgow. Não fazemos idéia.

O RC valoriza muito o estudo e a preservação das línguas Celtas, assim como a participação nas culturas Celtas atualmente existentes. A língua é a chave para se entender uma cultura e seu modo de pensar. Embora a fluência em uma língua Celta não seja um pré-requisito para participar da comunidade RC, as pessoas que são sérias em sua intenção de se dedicar à tradição quase sempre estudam uma das línguas Celtas como parte de sua prática RC.

E quais são as Línguas Celtas?

Há duas divisões básicas das línguas Celtas: Continental e Insular. Cada uma delas se subdivide nas divisões menores do Q -Celta e P-Celta. A distinção entre ambas se baseia em diferenças como as que existem para as palavras para “filho” e “cabeça” – em irlandês, mac e ceann, e em Galês, map e pen.

No Celta Continental, estão as seguintes línguas: Gaulês Cisalpino (norte da Itália), Gaulês Transalpino (França, Suíça, Áustria e Alemanha), Gálata (Turquia/Anatólia modernas), Lepõntico (norte da Itália), e Celtibérico (Espanha/Portugal – a única língua Q-Celta Continental). Estas línguas já não são mais faladas.

No Celta Insular, há sete línguas conhecidas: do grupo Goidélico (Q-Celta), Irlandês, Escocês e Manx, do grupo Britônico (P-Celta), Galês, Bretão e Córnico, junto com o extinto Cumbriano. O Picto parece ser uma forma arcaica de P-Celta.


O que quer dizer “Reconstrução”?

Ao se discutir as religiões da Antiguidade, “reconstrução” refere-se ao processo de construir um modelo das tradições históricas e pré-históricas, e então examina-lo em busca de idéias de como implementar estas tradições num sentido prático e moderno. A definição específica de “reconstrução” que mais se adapta ao nosso uso é “uma interpretação formada ao se encaixar juntos fragmentos de evidência”.

No caso do RC, o que tentamos modelar são as várias formas da espiritualidade Celta pré-cristã. Fazemos isso para criar uma prática espiritual moderna que retenha tanto do autêntico conteúdo antigo quanto possível, sendo ao mesmo tempo aplicável ao mundo moderno. Fazemos isso porque nos sentimos atraídos pelas divindades Celtas e pela visão de mundo Céltica, e queremos ajudar a preservar as línguas, música e culturas Celtas modernas.


Isso é uma tradição nova ou antiga?

O RC é uma tradição nova baseada em idéias e ideais antigos. Trabalhamos com a maior erudição possível para tentar compreender as culturas dos antigos povos Celtas, e o que eles faziam em termos de tradições espirituais pré-cristãs politeístas. Também participamos das tradições das culturas Celtas atuais em modos que expressem uma espiritualidade politeísta e animista. Mas, embora muitos elementos pagãos tenham sobrevivido na atual Fé das Fadas e outras práticas folclóricas, em termos de uma religião pagã completa e politeísta RC não possui, nem declara possuir, uma linhagem ininterrupta conectando-o ao passado pré-cristão.

Juntamente com o trabalho acadêmico, também confiamos em nossa iomas e aisling – nossa inspiração e práticas visionárias – para nos ajudar a encontrar modos de integrar as práticas antigas a uma nova época e ambientes. Um dos exercícios de imaginação primários no desenvolvimento do RC era pensar “com o que as culturas espirituais Célticas se pareceriam hoje, se nunca tivessem sido interrompidas pelo Cristianismo?” Todas as religiões e tradições crescem e mudam com o tempo. Se as culturas politeístas Celtas não tivessem sofrido interrupção desde a Idade do Ferro até hoje, elas seriam bem diferentes de como eram no princípio, assim como o Hinduísmo e outros caminhos espirituais, com o tempo, mudaram em suas próprias terras e contextos culturais.


Como e quando começou o RC?

Por muito tempo houve uma grande insatisfação com as abordagens populares à espiritualidade Céltica, e alguns indivíduos mantinham diálogos sobre como criar uma abordagem mais autêntica para a religião politeísta celta. Ao longo dos anos 80, um número crescente de pessoas começou a se reunir para discutir o tema e partilhar informação sobre as práticas Proto-RC de cada um.

Um evento crucial que estabeleceu a fundação para a maioria da prática RC foi o Pagan Spirit Gathering de 1985, e os seus workshops e debates sobre temas Célticos. Participantes desse Encontro voltaram a seus lares e continuaram a desenvolver os fundamentos de suas sub-tradições RC, incorporando algumas das idéias que haviam partilhado em pessoa. Em anos posteriores, alguns deles se reencontraram on-line e mais uma vez voltaram a colaborar entre si.

A primeira aparição do termo impresso “Reconstrucionismo Celta” como usado para descrever um movimento religioso específico e não apenas um estilo de estudos Celtas, foi feita por Kym Lambert ní Dhoireann no número da Primavera de 1992 da revista Harvest (Southboro, Massachusetts, USA). Ní Dhoireann deu crédito a Kathrynn Price NicDhàna como tendo criado o termo, embora NicDhàna atribua seu uso do termo como sendo uma simples extrapolação do uso que Margot Adler fez do termo “Reconstrucionistas Pagãos” na edição original de 1979 de seu livro Drawing Down the Moon.

Embora Adler dedicasse espaço a um punhado de tradições Reconstrucionistas, nenhuma das mencionadas era especificamente Celta. Também em Drawing Down the Moon, ao falar de seu grupo Neo-Druídico, NRDNA, Isaac Bonewits usou a frase “Reconstrucionista Eclético”. Mas, quando o RC já se havia estabelecido como tradição reconhecida, esta junção de termos havia se tornado um oxímoro, desde que “Reconstrucionismo” no sentido pagão/politeísta já havia sido definido especificamente para excluir “Ecleticismo”.

NicDhàna e Ní Dhoireann declararam haver criado o termo RC para distinguir suas práticas das de tradições ecléticas como a Wicca ou o Neo-Druidismo. Erynn Rowan Laurie também começou a usar o termo “Reconstrucionismo Celta” por volta do começo dos anos 90, embora “NeoCelta” fosse seu termo de escolha no início. Com a popularização feita por Ní Dhaoireann do Reconstrucionismo Celta na imprensa pagã, e o uso do termo pelas três pessoas na Internet, “Reconstrucionismo Celta” foi adotado como o nome da tradição espiritual nascente.


Quem é o líder do RC?

Não há um líder. Grupos individuais podem ter lideranças, embora alguns grupos sejam bem mais informais. Além do mais, há um grupo de pessoas que conquistou respeito na comunidade RC como um todo por suas idéias. No entanto, não há uma autoridade derivada desse respeito, nem é esse respeito universal ou absoluto. Todos nós trabalhamos para obter o que temos aqui. (ver também Os RCs são autônomos ou há algum tipo de órgão governante?, assim como Como vocês determinam quem são seus líderes espirituais se vocês não têm sempre uma hierarquia ordenada?)


Como eu entro para o RC?

Atualmente (2006) a comunidade é relativamente pequena e dispersa. Alguns RCs são afortunados o bastante para pertencerem a comunidades “ao vivo”, mas a maioria deriva o seu senso de comunidade da participação em fóruns on-line e listas de e-mail. Mesmo os que praticam juntos geralmente participam das discussões on-line, que atualmente são o meio mais rápido e fácil de contatar um grande número de pessoas, e podem levar a contatos ao vivo e à formação de comunidades locais. Uma combinação de leitura, pesquisa individual e participação em fóruns e grupos RC pode ajudar a manter contato, e colaborar, com a tradição RC. (ver também Como faço para começar?)


Como vocês podem recriar uma cultura que já está morta?

A cultura Celta nunca morreu. Embora as línguas Celtas às vezes estivessem em perigo, a maioria delas nunca morreu completamente, e o Galês e o Gaélico Escocês, no mínimo, mostram sinais de estarem crescendo. O Córnico recuou por pouco da morte, agora com bem poucos falantes nativos e um pouco mais de adotivos tornando-se fluentes nele. Muitas formas de arte, como música, poesia, literatura, artes visuais e dança continuam com grande vigor. Muitos RCs estão profundamente comprometidos com a preservação destas partes das culturas vivas.


Se a cultura está viva, por que vocês precisam reconstruí-la?

O que precisa ser reconstruído são as formas pré-cristãs e politeístas de ritual e práticas espirituais que se perderam ou foram suprimidas pelo Cristianismo. Embora tenhamos um acervo de folclore, cosmologia e mitologia de base, é necessário um bocado de experimentação e pesquisa para reconstruir uma prática espiritual viável. As opiniões sobre o quanto de reconstrução é necessário variam em nossas comunidades, com alguns se satisfazendo com as práticas folclóricas simples de que já dispomos, outros querendo ritos mais teatralmente elaborados ou ocultos, e outros ainda preocupados com a estrutura teológica. Tipos diferentes de prática estão se desenvolvendo em ramos diferentes da tradição. Muito trabalho já foi feito, e o projeto prossegue.


Isso é uma religião, ou uma cultura?

Ambas. RC é uma religião politeísta baseada em nossa compreensão e participação nas culturas Celtas presentes. Vemos nossa religião como sendo inseparável da cultura.

Um motivo pelo qual o RC foi desenvolvido foi a necessidade que sentimos de manter as práticas espirituais e crenças Célticas tão dentro do contexto das culturas Celtas quanto possível. Chamar algo de “Celta” significa que deve estar enraizado na cultura e não em práticas e crenças externas à cultura. O processo de passar um verniz Céltico sobre um núcleo de material não-Celta é como vestir uma prática externa em entrelaçados, nós e tartan; pode parecer Céltico para os não-familiarizados, mas sua substância não é Céltica. Nos anos 80, todas as religiões pagãs “Celtas” que encontrávamos eram variações sobre esse padrão não-Celta. Procurávamos pela profundidade e consistência interna que vem de uma religião estar baseada numa cultura específica, ao invés da experiência dispersa e, para nós, superficial de uma espiritualidade eclética ou “universal”. Precisávamos que nossa religião fosse parte integral de uma matriz cultural completa, ao invés de termos de separar nossas vidas espirituais de nossas vidas cotidianas.

Poucos RCs vivem numa sociedade completamente Celta, assim não podemos afirmar que todos os que se identificam como RC fazem parte das culturas Celtas vivas. No entanto, muitos RCs estão envolvidos nas atividades das comunidades Celtas da diáspora, ou nas comunidades das nações Celtas. Apoiar as culturas de onde nossa tradição veio, e ajuda-las a crescer e prosperar, é algo simbiótico com a espiritualidade Celta, não importando se vivemos num país Celta ou na diáspora. Nosso objetivo não é ressuscitar uma cultura histórica exata, mas olhar para as culturas Celtas históricas e atuais para entender como sustentar nossas práticas e crenças em nossas vidas diárias. Também é importante entender que, enquanto procuramos praticar uma religião celta, ser um Celta pela definição mais restrita não é necessário, como não é necessário ser Asiático para praticar o Budismo, uma religião Asiática.

Nunca houve uma cultura Céltica monolítica, assim provavelmente nunca haverá uma cultura RC monolítica. Somos diferentes demais para isso. Existiram (e existem) várias nações Celtas, e mesmo em cada uma delas havia uma variedade de costumes, práticas e crenças. Não é de surpreender que esta variedade se reflita no RC. Não só há as diferenças nas crenças religiosas, como também há as diferenças nos costumes que escolhemos adotar das fontes históricas e presentes, assim como as nossas interpretações desses costumes.

Numa religião cultural, a importância do costume às vezes supera a da crença, assim alguns grupos culturais podem ter membros que decidam compartilhar uma prática mesmo que suas crenças a respeito da prática possam diferir. Muitas vezes é mais fácil concordar com um costume do que com cada detalhe das crenças por detrás dele. Essas diferenças na crença podem ser discutidas, espera-se, de modo educado e com boas referências para sustentar os argumentos, mas a despeito das diferentes interpretações do porquê fazemos algo, os costumes que compartilhamos também nos unem.

A maioria das pessoas nas culturas Celtas modernas são Cristãs, mas de um tipo de Cristianismo que freqüentemente se harmoniza com o paganismo Celta. Nesse espírito, uma grande comunidade Celta contemporânea provavelmente terá em seu meio RCs e Cristãos Celtas, junto com os de herança Celta que sigam outras religiões, ou nenhuma. Pagãos e Cristãos podem orar juntos a Bríde em Seu poço sagrado, os RCs adorando-A como uma Deusa, os Cristãos Celtas venerando-A como uma Santa. Para nós, não há conflito nisto. Somos todos parte do tecido das culturas Celtas vivas. (veja também O Cristianismo Celta é parte do RC?)


Então todos nesta comunidade chamam a si mesmos de Reconstrucionistas Celtas?

Sim e Não.

Embora a maioria de nós se refira às nossas tradições como sendo Reconstrucionistas Celtas, e haja um núcleo de princípios e estruturas rituais compartilhadas, de certo modo RC é um termo genérico para uma variedade de sub-tradições.

Nos 80s e começo dos 90s, havia uma variedade de nomes em uso para as primeiras abordagens da tradição. Em retrospecto, muitas daquelas coisas agora são chamadas de “Proto-RC”.

Mesmo depois que os termos “Reconstrucionismo Celta” e “Paganismo Reconstrucionista Celta” se tornaram comuns, sempre houveram outros nomes também em uso.Alguns RCs quiseram dar maior especificidade cultural a seus nomes, por exemplo, referindo-se como sendo “Reconstrucionistas Gaélicos” ou “Reconstrucionistas Escoceses” ou “Reconstrucionistas Galeses”.

Nem todos os que fazem uso das técnicas reconstrucionistas Neo-Pagãs estão plenamente satisfeitos em usar o termo “Reconstrucionismo Celta” para nomear sua religião, considerando-o como descrevendo uma metodologia, e não uma crença, ou vendo o termo como incorretamente descritivo. Outros aceitam o termo RC, mas preferem nomear suas sub-tradições para distingui-las dos outros sub-grupos e espécies de RC. Alguns dos nomes escolhidos pelos envolvidos em religiões de estilo RC incluem:

Amldduwiaeth (“Politeísmo” em Galês)
Aurrad (“Membro da Tribo” em Irlandês Antigo)
Ildiachas (“Politeísmo” em Irlandês)
Ioma-Dhiadhachd (“Politeísmo” em Gaélico)
Liesdoueadegezh (“Politeísmo” em Bretão)
• Neo-Celtismo
Pàganachd (“Paganismo” em Gaélico)
Págánacht (“Paganismo” em Irlandês)
• Págántacht</i> (grafia Irlandesa alternativa de Págánacht)
• Restauracionismo Celta
Senistrognata (“Costumes Ancestrais” em Celta Antigo reconstruído)
Yljeeaghys (“Politeísmo” em Manx)
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